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Rapsody em Eve: Sobre mulheres negras, mesmo

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27/08/2019 18h21

Tem vários os porquês para que Eve, o mais novo álbum de Rapsody lançado semana passada já nascer dentro de qualquer Top 5 de 2019 honesto. É rap em altíssimo nível técnico, feito e principalmente direcionado para mulheres negras.

A nativa de Snow Hills, Carolina do Norte Marlanna Evans teve muita base para ser MC, além de fã. Assistiu durante sua adolescência artistas como Lauryn Hill, MC Lyte, Queen Latifah, Rah Digga, Missy Elliot (artista qual ela claramente absorveu influência), e desde 2004 resolve escrever suas rimas e seguir carreira no rap. Vivendo em uma zona tecnicamente rural do estado, filha de um mecânico e uma manicure, um dia timidamente mostrava algumas rimas a um cara que de sua cidade que já fazia sucesso, o produtor e DJ 9th Wonder e no outro, fazendo inúmeras participações com caras maiores ainda como Kendrick Lamar em "Complexion", uma das jóias de To Pimp a Butterfly, foi pra dentro do pesado time da Roc Nation e merecidamente levou uma indicação ao Grammy de melhor álbum de rap do ano passado com Lala's Wisdom. E, falando em rap e os diálogos em torno, suas rimas criticam  alguns conceitos que, façamos justiça, estão gastos e ainda assim muito presentes culturalmente na música rap: a sexualização dos corpos femininos. Em um patamar lírico digno dos melhores liricistas da atualidade, Rapsody vem em ótimo momento celebrar o feminino e as intersecções entre o hip hop, a literatura, a música e o ativismo negro e as mulheres que foram indispensáveis na evolução das pautas de hoje. tanto que, o mais legal em Eve, é que todas as faixas tem nomes de mulheres negras que, da mesma forma que ela, tinham o mesmo ideal. Vamos falar de algumas delas: 

 

Nina

Desde a primeira nota, é quase como se a música que carrega os samples utilizados, "Strange Fruit" de Nina Simone, fosse feita para dar à luz "NINA", a primeira faixa. Enquanto Rapsody canta suas rimas cuidadosamente trabalhadas, a música lentamente se constrói antes que subitamente chegue ao seu pico proverbial

 

Cleo

O banger contundente, que é aspergido com samples do hit de 1981 de Phil Collins, "In The Air Tonight", entra em cena em todos os cilindros. A música é dedicada a assaltante de banco Cleo Sims, no clássico do cinema negro Set It Off  (Até as Últimas Consequências, título brasileiro) de 1996, interpretado por Queen Latifah, que também participa de Eve na faixa "Hatshepsut".

Aqui, Rapsody fala com seus críticos e revela que ela nem sempre se sentiu bem-vinda em uma cultura que ela incorpora sem esforço.

N*ggas  on my label who ain't want me in the front end/Some sisters in the industry, y'all know y'all was frontin' (I know it)/Dressed too tomboy,rap too lyrical (You said it)."

Manos no meu selo, que não me querem na linha de frente? Algumas irmãs da indústria (musical), vocês sabiam com quem estavam batendo de frente? (eu sei) / Vestida muito moleque, rimando muito lírica (Você disse isso). "  

 

Mas como Rapsody confiantemente transmite, ela não é mais uma escrava das opiniões de outras pessoas – falando disso na proxima faixa:

 

Aaliyah

"Eu não me importo com o que você tem a dizer sobre mim não mais (Mais)"/ "Double dutchin' (nome dado à brincadeira de pular corda) quando eu estou falando e minhas costas nas cordas (alusão às cordas de um ringue). 

Rapsody sempre longe de arrumar intrigas na rede ou nas entrevistas, ela sempre foi muito subjugada pela forma que se veste – sempre de tênis e roupas largas – de mesma forma que Aaliyah no começo dos anos 90, onde o apelo aos corpos femininos era também muito forte dentre as cantoras de R&B. E isso em algum momento chegou a interferir no sucesso dela em algum momento. Não, muito pelo contrário inclusive.

E com EveRapsody dá ao ouvinte todas as oportunidades para aprender quem ela é, por ter aprendido e se informado sobre a da vida dessas mulheres poderosas. Em "Sojourner", com participação de J Cole, define firmemente o Rap em sua própria categoria. Ao longo do caminho, ela rejeita o hedonismo e a ostentação exaltada no rap, e deixa claro que ela ficará bem sem um carrão ou uma mansão multimilionária. E os dois tem bem essa temática mesmo, não tão ligados à exposição do poder econômico.

Ibtihaj – o hit que travou nossas cabeças

Aqui ninguém tava muito preparado pra ouvir samples e refrão de "Liquid Swords" de GZA. Longe de ser um cover ou alusão barata e os vocais de D'Angelo, Rapsody mostra o quão longe pode chegar seguindo suas verdades e, com isso, fazer uma reverência a quem precisou fazê-lo durante toda a carreira. A faixa é em referência de Ibtihaj Muhammad, a primeira mulher muçulmana no time americano de esgrima na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Frente ao tempo que vivemos, é algo extremamente importante o distanciamento ao ódio religioso que assola a comunidade mundial. Além das aparições de Roxanne Chanté, MC do Queens que protagonizou a primeira batalha contra o sexismo no rap (falamos sobre laaa atrás, na edição 19 do nosso podcast) e Mary J Blige, que tem uma história de muita luta para enfim tornar-se uma das soul divas da história. Além de claro, as histórias isoladas dos feats na faixa, D'Angelo que desconstruiu a imagem de de cantor de R&B e tendo seu trabalho de estreia, Brown Sugar como o precursor do que anos depois chamaríamos de neo soul e GZA, junto do Wu Tang Clan que trouxe um respiro e renascimento do que era fazer rap. É muita gente que saiu do nada para iluminar o novo junto em um vídeo só. Assiste e segura as lágrimas:

 

E quem esteve por New York City no último final de semana, do nada – boom!:

 

Com participações também de Leikeli47, o promissor que já realidade SiR e o novo queridinho do Stevie Wonder PJ Morton, Rapsody vem em meio a esse mar de lançamentos em 2019 extremamente focada em colocar em suas rimas os motivos e referências que a trouxeram pra dentro do rap e quem é que ela vai continuar chamando, apoiando e servindo de ponte para maiores inspirações na arte e na vida, fazendo com que esse ciclo continue. As mulheres negras.

Dissemos que Eve já é top 5 do ano lá no começo, certo. Ok. Pode anotar.

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.