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The Ecstatic: a música global na despedida de Mos Def

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13/08/2019 15h20

Desde a época de Black Star, Mos Def (que hoje prefere ser chamado de Yasiin Bey, por sentir estar se tornando um produto acima de sua pessoa) é tratado como um dos grandes artistas do Rap, com presença garantida na linha de frente que traria de volta a verdadeira essência do gênero para o mainstream. Seu primeiro álbum, Black On Both Sides, encheu de esperanças todos os fãs e garantiu rapidamente o status de clássico. Porém, após um início animador, vieram dois discos razoáveis, brigas com a gravadora, boas atuações em alguns filmes e ótimas colaborações com outros emcees. Mas, quando o rapper de "Ms. Fat Booty" lançaria novamente um registro fonográfico compatível com seu talento? A nova tentativa na época chama-se The Ecstatic, lançado em junho 2009.

 

Com Mos sendo um MC/ator/cantor/produtor, a expectativa sempre é de um álbum pouco ortodoxo, cheio de experiências e versatilidade. Neste ponto, The Ecstatic é extremamente verdadeiro. As batidas são variadas, indo desde os samples indianos de Madlib até o post-hip-hop de Georgia Anne Muldrow, passando pelo soul brasileiro da Banda Black Rio. Como se não bastasse, Mos Def arruma tempo para rimar em espanhol e árabe, cantar, recordar sua vida e dar uma ponta de esperança aos fãs com um dueto como antigo parceiro Talib Kweli. Como dá para perceber, o disco tem um monte de referências, nem sempre convergentes, que o transformam em um grande mosaico musical.

Dentro deste caldeirão de influências, o lado oriental atinge uma certa proeminência. Além dos samples indianos e das eventuais falas árabes, Mos Def vai fundo na questão do Oriente Médio em "Wahid", comparando a vida no local àquela levada na cidade – atenção especial no início trava-língua do flow de Mos. "Supermagic", a faixa inicial, combina guitarras roqueiras a samples vocais da Turquia a um contundente discurso social, que inclui novamente alguns aspectos da região.

Além de afiar um discurso mais político, Mos também investe na introspecção. O primeiro single do disco, "Life In Marvelous Times", é uma narrativa do emcee sobre sua vida que depois encontra divagações sobre os tempos atuais para terminar numa conclusão à la carpe diem: "É assustador pra caramba, mas não há dúvida / você não pode estar vivo em outro momento, além de agora". Ironicamente, a letra mais séria contrasta com o beat radiofônico, com sintetizadores e um sample meio épico para dar a noção da batalha que foi a vida de Mos. A espanhola "No Hay Nada Mas" segue pelo mesmo caminho, mas funciona mais como o ponto de encontro entre o pessoal e o social no discurso do emcee.

Musicalmente, The Ecstatic, como dito acima, é um grande caldeirão com ingredientes do mundo inteiro. "Auditorium", com Slick Rick, usa trilhas sonoras de Bollywood para trazer à tona o melhor beat do disco, que já havia aparecido num volume do Beat Konducta de Madlib. "Roses", com Georgia Anne Muldrow, é uma mistura de R&B com jazz muito bem executada, com Muldrow emprestando seus talentos vocais para a faixa. "Casa Bey" vem beber em fontes tupiniquins, absorvendo todo o suíngue do soul brasileiro dos anos 70. Depois de viajar o mundo através da música, Mos volta aos EUA em "Priority", com uma bateria reta à la RZA (Wu-Tang Clan) dividindo espaço com um soul ao estilo Kanye West (no começo da carreira, claro). Já "History" é um instrumental de J Dilla, compartilhado com Talib Kweli, armado com samples vocais, pequenos toques de guitarras e outros instrumentos de corda.

(quem tava no último indie hip hop em 2009, lembra…)

Por um lado, Mos Def não ofereceu outro clássico a seus fãs ávidos. Mas, se for feita uma análise mais realista, discos com este status são exceção, e não regra. The Ecstatic é um álbum com qualidades, cheio de influências, que vai agradar aos apreciadores com uma mente mais aberta. Poderia ser mais consistente, sem tantos altos e baixos, claro, mas ainda assim merece ser ouvido com bastante atenção, sobretudo pela busca por novas direções dentro do rap.

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.