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Frequência Modulada

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Histórico

Bruce Williams e Dr. Dre - negócios são negócios (parte final)

Frequência Modulada

28/11/2018 12h56

Na última parte da série, ele fala sobre o álbum de Dre e Rakim que não saiu, o envolvimento de Al Sharpton na treta entre 50 Cent/The Game, por quê Bruce Williams deixou Dr. Dre e se o álbum Detox irá ser lançado algum dia.

"Detox é o conceito que Dre tem tentado conceitualizar há anos. Ele estava tão dedicado a fazer esse álbum que após o The Chronic ele fez camisas com a estampa Detox… seria o seu álbum de despedida, o álbum que iria mostrar seu amadurecimento do Gangsta Rap. Faz sentido, ir do Chronic para o Detox, porque foi o que Dre fez basicamente. O problema é que ele não sabe sobre o que vai falar. Quem vai querer ouvir falar sobre sua vida estável e suburbana? – páginas 144-145

 

HipHopDX: Detox. Você já sabe qual é a pergunta…

Williams: As pessoas estão em cima do Dre por causa do Detox, mas ele nunca quis fazer. Ele deve ter seus 40 anos, sobre o que ele vai falar? Ele precisa falar algo para esses jovens de 13 anos assimilarem. Sobre o que ele vai falar? Ele não pode chegar e dizer, "Foda-se a polícia," ele não pode continuar falando sobre fumar maconha, que ele já esteve em vários lugares e fez de tudo. Para onde ele vai agora? Mas tenho certeza que ele vai fazer o álbum e vai sair do jeito que ele quer.

 

HipHopDX: Será que vamos ter que esperar muito por Detox?

Williams: Eu acho que não. Quando o álbum sair vai ser um choque, e eu acho que esse álbum tem que sair.

"Mas Rakim não é mais o rapper que costumava ser. Ele não consegue rimar no estúdio com uma banca lá dentro. Ele só escreve em casa. Dre queria escrever as faixas no estúdio para que os fãs sentissem a camaradagem. Rakim é uma lenda, mas ele foi uma lenda no seu tempo. A quimica entre os dois não existiu…" – página 128

HipHopDX: O que aconteceu com o álbum de Dre e Rakim?

Williams: O álbum Oh My God?  Toda vez que Dre fazia uma entrevista, perguntavam para ele com quem ele queria trabalhar, a resposta era sempre a mesma: Rakim. Lutamos bastante para conseguir o Rakim, e finalmente, Dre conseguiu o Rakim. E com um título como Oh My God, o público estava esperando algo astronômico. E a verdade é que os dois não se combinaram. Algumas das músicas do álbum Get Rich Or Die Tryin' de 50 Cent eram para ser de Rakim, por exemplo "Back Down" e "Heat", havia outras também.
Eu vou deixar assim: Rakim é uma lenda… lendas são lendas. Com todos esses novos MCs talvez o público não esteja querendo ver isso. Nós apreciamos os dois porque crescemos ouvindo eles.

 

HipHopDX: Qual o problema da Aftermath e seus artistas que estão sempre entrando e saindo?

Williams: Olhe para a Aftermath. Eles não tem um nome forte. Eu posso dizer Aftermath, e as pessoas irão dizer, "Quem é esse?", mas quando eu digo Dr. Dre, 50 Cent, Eminem, então eles entendem. Se você disser G-Unit, todos conhecem G-Unit. Se você dizer Shady, todos sabem quem é Shady. Aftermath não tem um nome forte porque não lançamos muitos materiais. Todos ficam em cima do Dre o tempo todo, ele não tem tempo para criar novos artistas. Por que você acha que Game teve tantos problemas? Ele não sabia fazer refrões. Por dois anos ele batalhou sozinho.
Se você não ajudar os artistas da sua gravadora, sua gravadora nunca estará completa. Dre está fazendo músicas para todo mundo na Interscope e não está cuidando da sua gravadora. Isso contribui para o fato dele não ser um homem de negócios.

 

"Quando a treta entre 50 Cent e The Game veio a público, Al Sharpton nos ligou e disse que queria meio milhão de dolares. Do contrário ele iria fazer passeatas e iria intimar a comunidade. Nos demos a ele US$250,000. Então The Game e 50 fizeram as pazes em público, mas já estava tudo elaborado, até a conferência de imprensa." página 148

 

HipHopDX: Em seu livro você diz que Al Sharpton basicamente exigiu dinheiro para não ir a público e fazer uma marcha contra a treta de The Game/50 Cent.

Williams: Ele disse "se não recebermos meio milhão, vamos marchar". Simples assim. Veja a C. Delores Tucker no passado. Ela falou um monte de merda mas quando fechava as portas eles conversavam sobre a criação da própria gravadora. Mas não é isso que falam para os irmãos nas ruas! Temos um monte de líderes negros que não fazem porra nenhuma pelo povo. Eu não vejo o que eles fazem. Na situação do 50 e do Game, como você chega e diz, "Queremos uma quantidade 'X' de dinheiro", mesmo que esse dinheiro esteja destinado à caridade. Por que não vieram até aqui e disseram, "hey, vamos todos nos sentar e resolver essa situação," não venha com essa conversa de "Nos dê meio milhão de dolares ou iremos marchar!". E isso não resolveu a situação. Não me parece que eles resolveram a desavença entre eles.

 

HipHopDX: Então tudo aqui foi uma encenação?

Williams: Tudo foi orquestreado por Al Sharpton.

 

HipHopDX: Você está falando sério?

Williams: Sim, eles fazem isso o tempo todo! Esses supostos ativista não querem nada além de dinheiro.
Tivemos que ir para New York para fazer esse grande encontro. Quincy Jones, Colin Powell, o dono da revista Black Enterprise [Sr. Earl G. Graves], uma das filhas do Malcolm X, Puffy Daddy. Quando a Death Row era grande, eles tentavam nos dizer o que fazer com nosso dinheiro. Onde vocês estavam quando estávamos tentando ganhar esse dinheiro? Nenhum de vocês nos deu um contrato, e ainda assim, ficam falando merda sobre a gente e não fizeram um único movimento para nos ajudar. Ficam tentando nos dizer o que fazer com nosso dinheiro, mas nem falavam com a gente antes disso.

 

"'Quer saber de uma coisa?' disse Busta Rhymes após participar de uma rima com The Game, 'Quando você rima, às vezes, suas rimas soam como desrespeito. Tá ligado, é o que me parece!' Todos na sala começaram a rir.
 Isso era o que The Game tinha de bom, e era o seu grande problema também. Seu álbum de 2004, The Documentary, é o som de alguém lutando para se igualar aos talentos existentes ao seu redor. Ele nem sempre respeitava o seu lugar no processo de crescimento…" – página 140

 

HipHopDX: De volta a 50 Cent e Game. Essa treta era verdadeira?

Williams: Game e 50 não se deram bem desde o começo. Jimmy Iovine foi o responsável por colocar Game na G-Unit, porque isso daria mais presença da G-Unit na West Coast, e Game tinha mais presença na East Coast do que na West na época. Assim Game poderia correr junto com a G-Unit e vice-versa. Ele queria vender muitos álbuns.
Mas você tem que entender que Lloyd Banks e Tony Yayo são os soldados do 50. Game já tinha um contrato com Aftermath. Game já tinha seus soldados. Game e 50 são muito parecidos no jeito de agir, e nunca gostaram um do outro. Mas eles conhecem o jogo. 50 Cent deu algumas de suas músicas para The Game e essas foram as melhores músicas do álbum do Game. 50 Cent fez os refrões. Mas 50 queria que Game fosse seu soldado, e Game não queria ser soldado de 50. Foi assim que começou. 50 queria ser o chefe.
Foi uma questão de momento. De uma hora pra outra todos estavam falando de Game. 50 estava ajudando seu álbum. Toda a coisa da treta começou com inveja.
O video de "This Is How We Do" era para ser assim: de um lado da rua seria Cali, e do outro seria New York. 50 estaria de um lado e Game no outro. 50 não quis fazer o video – Quer saber o motivo? 50 Cent disse "Game não é do meu nivel, e se nos verem juntos no video as pessoas vão pensar que ele está no meu nivel."

HipHopDX: Caramba…

Williams: Eu acho que o Dre deveria ter entrado nessa hora na treta. Ele é o ícone, ele poderia ter acabado com isso. As vezes você tem que assumir seu papel. Se você não faz nada, a treta vai longe.

 

HipHopDX: Você já ouviu falar desses projetos que iriam sair e nunca foram lançados?

Williams: Se eu ouvi falar? Pow, eu tenho eles comigo!

 

HipHopDX: Tem bastante músicas?

Williams: Ele tem um monte de músicas que nunca lançou. Eu ainda tenho as músicas que gravamos com Rakim.

 

HipHopDX: E aquele álbum que ele iria fazer com Ice Cube, o Helter Skelter?

Williams: Não terminamos o álbum Helter Skelter. Mas se o Dre decidir lançar esse álbum todos vão ficar loucos, você vai dizer, "Caralhoooooo!"

 

HipHopDX: Para fechar, o que fez você abandonar Dre e a indústria da música?

Williams: Eu queria que toda a nossa banca tivesse sucesso. Dre deveria ser a raíz de uma árvore forte, nós deveriamos ser os galhos. Não me diga o que nós devemos fazer. Se passaram 17 anos e não aconteceu nada. Eu tenho três filhos e uma esposa. Ele não queria mais me ouvir, então mandou eu trabalhar com sua esposa. Eu percebi que iria me aposentar lá fazendo tudo que eu não tinha vontade. Eu queria sair fora, mas fiquei tanto tempo ao lado do Dre e pensei, como o resto do mundo vai me aceitar agora que o deixei? E assim tomei minha decisão final. Em minha última conversa com Dre na Aftermath eu disse que tinha que ir a uma reunião… eu nunca mais voltei.

 

"Vendo tudo agora, minha vida no mundo dos negócios foi do jeito que deveria ser.
 Ganhei experiência e salários na Death Row e Aftermath. Meu amigo gênio foi irresponsável e muito ocupado, mas ele sempre me ensinava uma lição do seu jeito.
 Estou feliz de estar onde estou agora. Eu ajudei a criar história com o meu mano Dre. Eu observei a força do conhecimento das ruas – e suas fraquezas. E mesmo que uma parte de mim deseje estar ao lado do Doutor nessa batalha que é o lançamento de outro álbum, não vou me queixar. Não foi tão ruim ser o homem por trás do homem." – página 164

 

Adoramos trazer todos esses detalhes por detrás da cortina pra vocês. Inclusive entender onde começam grandes polêmicas entre os artistas, que sempre esbarram na fome de ascensão, vontade de que o alcance de suas pautas se sobressaia às demais (da mesma forma que faziam dentro das problemáticas dos negócios nas ruas). E acompanhar a trajetória de um jovem de Compton que fez um bilhão com arte, é lindo de se ver.

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.