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Missy Elliot em Supa Dupa Fly: a dona das novas regras

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16/07/2019 19h04

 

Provavelmente vocês estão comentando (deveriam, só uma opinião…) sobre a capa da Marie Claire americana desse mês com Missy Elliot. Tá linda? Sim, tá muito. Penando nisso, resolvemos fazer uma viagem de volta aos anos 90, onde nomes que qualquer um que se considera um fã do gênero deve conhecer e respeitar: Lil 'Kim, Queen Latifah, MC Lyte, Lauryn Hill e principalmente ela, Missy, no lançamento de seu primeiro álbum solo, Supa Dupa Fly.

Ninguém pode dizer com certeza, mas por algum motivo, um estigma negativo é prontamente e injustamente associado a rappers femininos na maior parte do tempo. Mas a partir do lançamento dessa obra, proporções novas quanto a texturas, métricas de rima e principalmente identidade visual de uma artista de rap. Inclusive, olhando para artistas muito respeitadas hoje como Leikeli47, Rapsody e Lizzo, tem MUITA coisa de Missy Elliot.

O rap sempre conhecido como um gênero musical inegavelmente dominado por homens contando histórias de suas sobre baladas, drogas (oscilando entre o combate e o abuso), sexualização dos corpos femininos, violência e disputa de territórios nas quebradas, e qualquer outra coisa considerada digna (?) a se colocar em uma letra. Pouco espaço é deixado aí para as artistas mulheres no rap sob este holofote, infelizmente típico. Mas em 15 de julho de 1997 foi diferente.

O álbum chegou em um momento em que o hip-hop havia começado a atrair grande apelo mainstream e estava atravessando toda e qualquer fronteira étnica. Não importava a sua raça, idade ou posição social; hip hop passou a ser o mais cool e rico financeiramente dos gêneros musicais e ponto. Era hora das mulheres mostrarem que o hip-hop poderia ser feito ao mesmo tempo sexy e badass. O álbum de Missy é definitivamente a manifestação dessa ideia. Combinado com uma produção musical desconhecida, sonoricamente diferente, mais rápida, cheia de elementos específicos e com poucas associações com o que se praticava no boom-bap e gangsta. Feito por um cara da Virgínia – um tal de Timbaland – e as rimas inventivas emitidas a partir de uma voz maravilhosamente suave, tornou-se a fórmula para algo revolucionário.

Este álbum alterou o curso do hip-hop e do R&B para sempre, de uma maneira que ninguém poderia ter visto. As rimas de Missy eram inteligentes, libertadoras, engraçadas e acima de tudo únicas. Seu flow parecia saltar para a exata cadência digitalizada dos instrumentais irregulares de Timbaland – como dissemos acima, não era mais aquele recorte de sample de James Brown ou The Gap Band, inserido em sequências de bumbo e caixa lineares, constantes. Também é importante notar que, neste momento, especialmente, Timbaland estava fazendo coisas dentro de batidas que nenhum outro produtor tinha sequer começado a experimentar. Desafiar descaradamente uma artista feminina de hip hop a se descolar da expectativa do mercado era revolucionário por si só.

A batida forte da bateria em faixas como: Izzy Izzy Ahh", "Why You Hurt Me" ou "I'm Talkin"' puxava as pessoas a dar uma bela aumentada no volume do som do carro. Missy poderia construir hits mais rápido do que qualquer artista que você pudesse pensar. Ela poderia cortar o ar para sua voz gritante no final imediato de qualquer palavra com a mesma facilidade com que eleva seus vocais de forma mais harmônica em "Don't Be Commin (In My Face)".

Missy ofereceu uma ótica em oposição a mesmice habitual do hip-hop americano, de homens se vangloriando de proezas sexuais e a coleção de carros e inimigos na rua. Ela fez uma das mais interessantes canções sobre sexo de todos os tempos, muito graças a Timbaland. "Sock It To Me" começa com som de trompas e evolui para uma justaposição do pesado e do suave. Uma batida pesada acompanhada por letras misteriosamente íntimas sobre se querer sexo casual – e sobre a ótica feminina! Sua versatilidade é facilmente perceptível ao ouvir todo o álbum. Ela pula de improvisação lenta para eclética pop para gangsta como se não houvesse separação entre eles. O resultado é uma coerência e Inteligência em utilizar de todos os elementos e estilos de rap e de vocais praticados no R&B, enquanto que o estigma negativo feminino do rapper sumia diante dos olhos de todos.

 

E pra quem achava que passaria batido: Não né…?!

A coisa que mais entortou a cabeça de todo mundo. Uma lente fish-eye na câmera, um compressor de ar acoplado na roupa, uma picape Hammer amarela – e a consequente explosão na procura por compra. Aparições de nomes grandes já na época como Taj do SWV, as meninas do Total, Lil'Cease e Lil'Kim, que eram as preciosidades da Bad Boy Records junto de seu mentor e "chefe" Puff Daddy, além do próprio Timbaland e a rapper Da Brat. Vários prêmios e o um senhor case de sucesso para o jovem produtor de vídeo Hype Williams. Sim, é impossível falar de Supa Dupa Fly sem mencionar o hit dos hits dentro dessa obra. Até hoje, ninguém passa despercebido por "The Rain". Que hit, que hit!!!

Claro que hoje em dia gênero já deixou de ser variável quando se fala de talento de um artista, a música não conhece esse papo gênero. Em vez de dizer: "Ela é uma das melhores rappers" femininas "de todos os tempos!" Só sei que a palavra "rapper" sozinha vai funcionar bem. Que essa conversa sirva pra, além de entender o que inspirou tantas artistas do rap e R&B de hoje, é muito também do por quê marcas como a Adidas por exemplo, se reaproximaram da cultura urbana nos anos 2000. Sua tia Missy deve lançar trampo novo daqui a pouco, e nós aqui ficaremos com o radar ligado. Até semana que vem!

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.