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Sobre Clássicos: Tical, de Method Man

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07/05/2019 16h32

O álbum de estreia e melhor item do catálogo solo do Method Man, lançado em 15 de novembro de 1994. O disco foi o primeiro a sair na leva de projetos solos que os membros do Wu-Tang Clan lançaram logo após o sucesso do álbum do grupo Enter the Wu-Tang: The 36 Chambers, em 1993. E não foi por acaso que o ataque começou com o Mr. Meth.

 

É que, desde Enter the Wu-Tang e a faixa solo "Method Man", o cara já era preparado para ser a estrela da turma, aquele com o maior potencial de atingir audiências no mainstream – o que ficou comprovado anos depois com filmes, sitcoms e álbuns de qualidade duvidosa proporcionadas pelo Iron Lungs, um de seus vários sobrenomes dado a sua resistência pulmonar tendo contato com tanta "fumaça".

Voltando a Tical, o disco, apesar de ser o melhor da carreira solo de Meth, é provavelmente o mais "humilde", comparado a obras-primas como os projetos lançados pelos parceiros GZA (Liquid Swords, em novembro de 1995) e Raekwon (Only Built 4 Cuban Linx, em agosto de 1995). Por outro lado, apesar do potencial crossover do rapper, o que podemos perceber é que o álbum contém os beats mais minimalistas e sujos oferecidos por RZA. Algumas curiosidades sobre a feitura de Tical: uma enchente no estúdio do grupo acabou com todos os beats já feitos para o álbum, o que obrigou RZA e Meth, pressionados pela gravadora para cumprirem o prazo de lançamento e não perder o buzz do grupo, a refazerem todo o disco em tempo recorde; desesperados com o clima soturno do projeto, os executivos da Def Jam viram em "All I Need" a chance de um single para o rádio, e ofereceram a Meth um carro em troca da participação de Mary J Blige em um remix produzido por Puff Daddy. Depois de muito relutar, Method Man capitulou, com uma condição: haveria também o remix de RZA. Fim da história: foi o Razor Sharp remix que explodiu e garantiu certificado de platina e um Grammy para Meth.

Aliás, Tical é cheio de pequenas histórias curiosas que ajudam inclusive a entender o modus operandi do Wu-Tang Clan no começo da carreira. Uma das faixas mais memoráveis do disco, "Meth vs Chef", reeditada recentemente em "Wu-Massacre", é nada mais nada menos do que uma disputa entre Method Man e Raekwon pelo beat que mais tarde aparecia no disco de Rae como "Guillotine [Swordz]". O expediente era usado constantemente pelo então ditador RZA para decidir quais membros ficariam com quais batidas.

Depois de todo este background histórico, foco no álbum. A atitude "não estou nem aí, faço o que eu quiser" que consagrou o Wu-Tang Clan fica muito evidente também com Method Man. Mesmo estando numa grande gravadora como a Def Jam, o cara não se rendeu a fórmulas para vender. Os beats são incrivelmente soturnos e pesados, com Meth rimando igualmente sem concessões, com um battle rap afiadíssimo, concentrado em pintar imagens violentas e homenagear a sua tão amada cannabis. Mas o ápice desta postura é "Release Yo'Delf". Quem mais além de Meth e RZA para parodiar no refrão o hino disco e posteriormente gay "I Will Survive" e fazer disso ameaçador? Quem mais além deles para pegar o tal refrão e transformá-lo em um misto de autoexaltação e ameaças à indústria musical, tão bem representada pela Def Jam? Quem mais poderia colocar caixas tão pesadas e ainda assim fazer da faixa um potencial hit? Ninguém, amigos, ninguém. Vejam o refrão:

"Quando eu apareci na cena, os caras ficaram petrificados voltaram correndo para o estúdio como se estivessem sendo procurados por homicídio minha levada faz contigo o mesmo que a Tical, e nunca te guiará errado e todos vocês, vacilões da indústria, suas carreiras não vão durar muito"

Os outros dois singles também têm em comum esta independência criativa. "Bring The Pain" surge com o flow característico de Meth enquanto o mesmo exercita suas habilidades líricas sobre um beat com uma espécie de murmúrio no fundo e um refrão ragga, este último responsável pelo único fator radiofônico da faixa; "All I Need", a versão original, tem as mesmas letras, mas nenhuma cantora no refrão e uma batida ainda mais rasteira.

E, se os singles resumem bem a proposta de Tical, é necessário mergulhar nas outras faixas para completar o quebra-cabeça. A exataltação à maconha, já implícita no título do álbum, fica ainda mais evidente na faixa homônima, que abre o CD. À parte o refrão pedindo "passe [o baseado] para cá", repare no flow mais lento e na autoconfiança das rimas de Meth – "Eu não procuro por problemas, eu já sou o problema" – como referências mais sutis à musa inspiradora. Outra característica de Method é evidente no disco. Apesar de vir de um grupo com temáticas violentas, Meth sempre primou por saber misturar estas referências a sacadas carismáticas e engraçadas. E há linhas que comprovam isso por todo o álbum, como em "Biscuits": "Você está pronto para encarar as consequências e sofrer? / Eu digo até para a sua mãe que você não é nada".

Como em todo grande disco, Tical também esconde algumas joias por trás dos sucessos. "Mr. Sandman" é uma delas, sendo a única posse cut do álbum. Com uma participação primorosa de Blue Raspberry no refrão e nos ad-libs, Meth se junta a RZA, Inspectah Deck e aos protegidos Streelife e Carlton Fisk, se arrisca na cantoria e troca versos de altíssimo nível sobre uma batida que representa bem o tal som característico do Wu. Engraçado notar que, ao contrário da cartilha rezada na época pelos membros do grupo, Tical não conta com a participação de todos os generais, talvez como uma estratégia para catapultar Method Man ainda mais para o estrelato. "Sub Crazy" é outra faixa digna de nota, pois é nela que RZA põe em prática seus experimentos, sampleando trilhas sonoras dos filmes de kung fu e abdicando de caixas para criar um som turvo, quase cinematográfico.

Mas a grande estrela é mesmo "Method Man". O cara reeditou em sua primeira aventura solo todas as qualidades que mostrara na estreia do Wu, com uma levada impressionante que marcaria sua carreira, e um carisma que mais tarde o transformaria numa estrela além-rap. Em Tical, ainda como o membro mais carismático do Wu, ele criou um disco que, apesar de ter ficado conhecido pelos singles, tem ainda mais substância nos seus confins, o que não deixa de ser uma metáfora moderna para o próprio estado do rap.

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Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.

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