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Documentário "Tempo Rei" - sim, Gilberto Gil estava certo

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20/09/2018 14h24

"…Começo do caminhar, pra dentro do fundo azul…"

Tempo. Força que transforma e cura, impossível de se segurar. Das mais diversas fases de nosso querido Gilberto Passos Gil Moreira passa por diversos cenários, onde influências de ritmos dos mais variados. A função dos lugares em que viveu tiveram extrema importância.  Em um belo documentário chamado "Tempo Rei" de 1996, ele conta um pouco dessas passagens em um belo registro em vídeo que passa por diversas paisagens e cenários de onde cresceu. Seja Londres, a capital britânica ou Ituaçu no interior da Bahia; ambas gigantescas culturalmente, e muito presentes em sua obra.

Das lembranças em Ituaçu, onde o pai médico firmou carreira, encara lembranças da banda da cidade e da casa de onde passou seus primeiros anos – inclusive encontrando uma senhorinha que o viu efetivamente bebê. Uma complexa e rica simplicidade das pessoas que o veem passar pela rua enquanto dirige uma caminhonete – a terra, a religiosidade, o vento no rosto. Dá até pra entender o que de fato serve de inspiração para lindas letras dele. É um recorte em vídeo perfeito de Louvação, seu álbum de estréia em 1967.

Gil senta com o etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, com o escritor Jorge Amado e com Mãe Stella da Oxóssi sobre o sincretismo religioso na Bahia, a fase onde se dedica de fato ao candomblé e até a relação de fé cotidiana do brasileiro, ora cristã, ora de matriz africana – tão presente que nem percebemos mais. Além de obviamente, a musicalidade marinada nesse caldo, a identidade que nos abraça enquanto parte disso tudo.

Ao lado de Caetano à beira mar, em uma declaração de amor ao solo baiano cantando Cores Vivas. Seu primeiro encontro no camarim do Stevie Wonder, uma brincadeira com teclado e violão sem dúvidas um dos momentos mais lindos do registro.

Uma obra em primeira pessoa. De quem foi entender o que aconteceria com a música, arte e identidade afro-brasileira, fazendo o caminho inverso de suas pisadas, desde o interior da Bahia até as grandes capitais mundiais por onde levou sua obra. Engraçado pensar nisso. A música faz exatamente esse caminho permanecendo baseadas nos elementos africanos, indígenas e sertão nordestino de 1996 pra cá. Independente da influência externa que soframos nas músicas tocadas ou nos hits de verão, a base é a mesma, a escola é a mesma. O funk do Rio de Janeiro e São Paulo, o techno-brega, o pop com influência sertaneja. Já parou pra pensar? Com outras roupagens, não deixamos de ser os mesmos. Hoje tanta gente talentosa assumindo esse legado, tantas Luedjis, Fabríccios, Xênias e Tássias ainda estarão por vir, comprometidos em fazer o caminho inverso pra se saber qual direção tomar!

Tantos professores dignos de reverência e constantemente devemos agradecer – e Gilberto Gil, um dos mais queridos <3

Por direção de Andrucha Waddington pela Conspiração Filmes, diremos a você que nada melhor que se presentear com quase duas horas olhando pra dentro. Se encontrando em meio a todas esses cenários, mesmo não sendo de lá. Esperamos suas impressões!!

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.