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Les Étoiles: as estrelas ofuscadas da música brasileira

Frequência Modulada

12/05/2018 22h29

Sempre tem aquele artista ou banda que a gente gosta e pouco sabemos sobre e, o motivo real de não ter ficado famoso ou minimamente reconhecido pelo seu trabalho – esse é um desses casos.

Les Étoiles, duo queer formado em 1974 em Barcelona, pelo paulista Luiz Antônio, cantor que juntou voz com a cantora Áurea Martins no compacto do grande arranjador Dom Salvador lançado em 1970 chamado "Abolição 1860-1980" e o acompanhou em algumas turnês até se mudar para Europa. Em 1971, participou do disco do maestro Rildo Hora , chamado "A Vez E A Hora de Rildo Hora" na canção "O Pião".

O segundo integrante é Rolando Faria, cantor que havia deixado o Brasil no ano de 1973 e embarcou para a Europa com a missão de gravar o disco "Brésil 72" com Ronald Mesquita e "Central do Brasil", álbum que se tornou possível graças ao convite do produtor musical francês Eddie Barclay, fundador da gravadora Barclay Records, que ficou maravilhado após assistir a inúmeras apresentações do conjunto na casa noturna Number One (RJ). Após a turnê deste disco pela Europa, ficou em Barcelona, onde tudo começou pra essa dupla.

Ronald Mesquita conheceu Rolando Faria em um dos inúmeros encontros musicais que aconteciam na lendária Jaceguai, 27 (RJ), sede da MAU (Movimento Artístico Universitário), no qual artistas como: Ivan Lins, Gonzaguinha, Aldir Blanc e Chico Buarque, eram figurinhas carimbadas naquelas reuniões que aconteciam sempre às sextas-feiras.

Voltando ao velho continente, mais precisamente no ano de 1976, Les Étoiles lançam seu primeiro album: "Meu Coração é um Pandeiro ou…". Neste album de estréia já mostram que vieram pra brincar, interpretando canções de Milton Nascimento, "Viola Violar" e "Chica Chica Boom Chic" que muitos só conhecem na voz de Carmen Miranda, esbanjando muito swing, musicalidade, ousadia e muito carão –  olha isso.

Em 1977, veio o segundo disco, "Piratas do Sentimento", que conta com uma versão de Ébano do Mestre Luiz Melodia, trazendo aquela onda Samba Soul e um swing desconcertante nas linhas de baixo.

Em 1978, eles já eram reconhecidos por toda Europa, esbanjando muito talento, musicalidade e irreverência em suas apresentações abrindo os shows da turnê do cantor Claude  Nougaro e chamando atenção da famosa cantora France  Gall, que os convidou para uma participação em seu programa de TV, que tinha uma das maiores audiências França, o "Made In France"; era composto inteiramente por mulheres: orquestra, dançarinas e cantoras. A ideia de os únicos homens a participarem do programa serem Drag Queens não agradou os chefões da emissora e mesmo assim, durante uma semana, ao invés do intervalo comercial tradicional, France  Gall e Les  Étoiles  apresentaram um interlúdio musical, cantaram "Plus Haut Que Moi", a versão francesa adaptada feita em 1973 de Maria Vai com as Outras de Toquinho e Vinicius de Moraes.

No ano de 1980 eles lançaram um álbum ao vivo, se encontram versões de canções de Gilberto Gil como "Eu Vim da Bahia" e "Logunedé". Em 1981, Les Étoiles chegam ao Brasil no álbum "Les  Etoiles – Rolando & Luiz Antonio", um The Best  Of com canções dos 2 primeiros discos, para você colecionador de vinil, DJs, se encontrarem uma cópia dessa raridade nos sebos por aí não hesite em pegar, é bem difícil encontrá-lo.

Em 1984, ano que marca os 10 anos do Duo, nasce o disco "Sina de Ciganos". Um dos grooves desse disco é a "Novo Messias", composta pelos parceiros de longa data de Rolando Faria da época dos encontros musicais que aconteciam na Jaceguai 27, Marcio Proença, Marcos Aurélio e Silvio da Silva Jr. Em 85, seria lançado o ultimo disco das Estrelas, "Live Au Forum", mesmo após este ultimo registro, dedicaram-se às suas respectivas carreiras e se apresentavam juntos conforme a demanda de pedidos era grande. Les Étoiles se apresentariam mundão afora até o ano de 2001, ano que uma das estrelas do Duo foi para o outro plano: o paulista Luiz Antonio nos deixou aos 55 anos de idade.

Rolando Faria continua sua carreira, fazendo shows pela Europa e Brasil também, segundo nossas pesquisas, sua última visita ao Brasil foi em 2014/2015 para uma turnê, mas já foi o suficiente pra ver que ele continua espalhando pelo mundão com maestria uma das melhores qualidades que o nosso país tem que é a música.

Espero que tenham curtido a matéria dessa semana, não se tem muita coisa a respeito dos Les  Étoiles na internet (pra não dizer perto de nada), mas aqui você já consegue mergulhar nesse universo desconhecido por muitos ainda e passar pra frente, pois além de musicalidade e genialidade pensar que em um Brasil de 42 anos atrás era impossível para dois homens negros com vestes femininas fazerem o que amavam livremente. De fato encontraram essa liberdade na Europa e, com muito swing, belíssimas vozes e looks baphônicos, deram um realce inimaginável na nossa música e poucos aqui tem conhecimento desse tombamento. Hoje, Linn da Quebrada, Glória GrooveLiniker, artistas que representam muito nessa nova cena musical brasileira, e isso já está sendo reconhecido, FATO, mas pode ter certeza que Les Étoiles da Jaceguai, 27 a Théâtre des Champs-Élysée, pavimentaram essa estrada pra muitos destes artistas aqui mesmo tendo reconhecimento lá fora apenas, esse close eles deram e não vai passar batido se depender da gente. Boa audição!

Sobre os autores

Fabio Lafa escreve textos, podcaster, pesquisador musical e consultor em music branding.

Nyack é Dj, pesquisador musical e beatmaker.

Juliano BigBoss é estudioso do marcado do rap, pesquisador, produtor artístico e executivo.

Sobre o blog

Papo semanal e bem descontraído sobre os ritmos que movem cidades. Dicas e mapeamento de cenários musicais - clássicos e emergentes, do analógico ao eletrônico.

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